“Não se fazem coisas como antigamente” e “nada como as boas coisas simples da vida”. Você já deve ter ouvido essas frases e, se concorda com elas, deve sentir saudade e dar valor às conversas com os vizinhos na calçada da rua, às brincadeiras de roda e a um prato feito caprichado.
São aquelas coisas que continuam boas com o passar do tempo... entre elas, a música caipira – “uma canção que dura muitos anos e não morre, a letra e a melodia ficam aí, já a música do sertanejo moderno apaga, não tem uma história”, defende Zé Goiano, cantor na estrada há mais de trinta anos.
Pegada em terra seca que o vento não desfaz, a música raiz é um retrato da vida do campo, do cenário onde vive o caboclo, seus desabafos, suas tradições e crenças, enfim, sua identidade e a essência do seu dia-a-dia. É do campo que vêm a inspiração e a simplicidade da música raiz – cururu, moda de viola, pagode, cateretê, guarânia, entre outros. Trata os temais rurais com uma viola caipira e um acordeom, geralmente com duas vozes separadas pela mesma distância na escala (terças paralelas). Pedro Lemos Barbosa, diretor e editor da revista Viola Caipira, vai mais longe e arrisca ser “a identidade do brasileiro, um arquivo vivo da nossa história”.
Será que dá pra comparar modismo com tradição? Pedro lembra a frase do crítico musical José Ramos Tinhorão: “música caipira é manteiga e a sertaneja é margarina” e explica que “a primeira, com conteúdo e tradição, se mantém pela qualidade; a segunda, além de ser descartável, não tem consistência”. Apesar de radical, a opinião revela o que o mercado fonográfico procura: produtos descartáveis que são mais rentáveis, por isso a invasão da música sertaneja em prateleiras, diz. Apesar das novas marcas em terra molhada, a música sertaneja alegre que faz dançar e fala de amor, nasceu ao mesmo tempo em oposição e complementação à música caipira: em oposição por ter grande espaço na mídia e, atualmente, sofrer menos preconceito; em complementação, por ter raízes comuns com a música caipira e, desse modo, manter algumas semelhanças. A relação entre elas costuma ser amistosa, havendo inclusive mistura dos estilos em shows e em caracterizações de algumas duplas.
No entanto, há uma forte resistência, principalmente do homem do campo que, fiel ao seu estilo costumeiro, não abre mão da sua identidade e luta para que a viola caipira não desapareça do cenário musical brasileiro como parte da nossa cultura, diz Pedro.
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