30 junho, 2009

Viola, bela viola

A viola é um instrumento de tamanho menor que o violão e de formato um pouco mais curvado. Possui dez cordas, agrupadas em dupla, sendo algumas de aço e outras de metal.

Sua fabricação é, quase sempre, artesanal. Por isso, além de instrumento musical, ela deve ser considerada uma obra de arte. Para Levi Ramiro, tocador e fabricante de viola, “a fabricação do instrumento independe das mudanças sociais e econômicas, pois se trata de um sonho e os sonhos não morrem ou, pelo menos, espero que não morram!"

Para nomeá-la, as possibilidades são várias, como: viola caipira, viola de 10 cordas, viola sertaneja, viola cabocla, viola de pinho... Mas, uma característica é indiscutível: o seu som é único e sua presença dentro da música de raiz é unânime. Afinal, como Levi mesmo destaca, “preservar os valores da cultura caipira é tudo!”. E, valorizar a viola é justamente isso: mantém a raiz da nossa cultura sempre viva.

80 anos de moda de viola

A inauguração da moda de viola como elemento da indústria musical aconteceu em outubro de 1929, com o lançamento da primeira moda, “Jorginho do Sertão”. A música foi lançada dentro de um suplemento de 5 discos da Turma Caipira Cornélio Pires. Cornélio, aliás, era um grande pesquisador e estudioso do ambiente e da cultura caipira. Dentre suas principais obras, estão “Conversas ao Pé-do-fogo”, “Chorando e rindo” e “Coisas doutro mundo”.

Comemora-se em outubro deste ano, portanto, 80 anos da gravação da primeira moda de viola. Foi a partir deste marco que a música caipira efetivamente decolou. Na década de 1940, surge a dupla sertaneja Tonico e Tinoco, fundamental neste processo de popularização da música interiorana, como afirma o professor e sociólogo da Universidade Estadual Paulista de Bauru, Luís Fernando da Silva: “Nos anos 1940, Tonico e Tinoco tomam as rádios e marcam a inserção da música caipira em todo o país. A partir deles, veio todo o sucesso deste gênero musical”.

Com tema centrado na lida do trabalhador rural, nas práticas do campo e nos conflitos da vida do homem do interior, proliferam diversas duplas, muitas com grande sucesso, ganhando cada vez mais espaço no rádio e, posteriormente, na televisão. Dentre algumas duplas de destaque do período, estavam Pena Branca e Xavantinho, Zico e Zeca, Alvarenga e Ranchinho, dentre outras. Este gênero musical, denominado hoje em dia como de “Raiz”, foi, de certa forma, substituído por uma música sertaneja supostamente mais moderna, com temática mais urbana. A substituição ocorreu, principalmente, na década de 1980. Os principais ícones desta nova fase, que perdura até hoje, são Chitãozinho e Xororó e Leandro e Leonardo. São eles que inauguram o chamado “sertanejo romântico”.

Entrevista com Levi Ramiro, violeiro e artesão de viola

Quais meios são necessários para manter a música caipira sempre viva?
Preservar os valores da cultura caipira é tudo, pois o cotidiano da maioria das pessoas já está urbanizado e, mesmo em áreas rurais, já temos contato com o modelo de vida atual, individualista e consumista.

Você acredita que, fabricando viola, a música caipira é mantida?
A fabricação de instrumentos independe das mudanças sociais e econômicas, pois se trata de um sonho e os sonhos não morrem ou, pelo menos, espero que não morram.

Como tem sido o interesse das pessoas pela viola? Em aprender fabricá-la e tocá-la?
Existe, hoje, no Brasil, um movimento até um tanto silencioso da Viola Caipira comparado com essa cultura de massa que piora cada vez mais. Este movimento caminha paralelamente e não se confronta diretamente com o mercantilismo monopolista da cultura; músicos de várias outras tendências estão usando a viola e, com isso, ajudando os fabricantes a melhorá-la tecnicamente. Temos músicos de formação erudita, chorões, roqueiros e muito mais tocando viola no Brasil.

Você, além de fabricar o instrumento, também é cantor e compositor. Como é vista hoje a música caipira, em sua opinião? Ela é apreciada, bem aceita no meio rural e urbano?
A música de raiz ainda é mais apreciada pelas velhas gerações e pouco aceita entre os jovens devido justamente a diferença de valores.

Muitas pessoas utilizam o termo "caipira" como algo pejorativo, mas na verdade, seu sentido é outro, é algo muito positivo, muito bom. Você acredita que qual ideia prevalece na cabeça das pessoas?
Isso se deu pela imagem criada por Monteiro Lobato de que caipira é sinal de atraso, de gente doente, pobre, preguiçosa... E isso não é verdade.

O que, em sua opinião, mais caracteriza a música caipira, de raiz? Por que ela é tão importante para a identidade do brasileiro?
O que vemos de positivo na questão sócio cultural são valores como solidariedade, amor pelas coisas simples e essenciais da vida; costumes que ajudam na formação do indivíduo como a prosa, contar causos e tudo mais. Na questão musical,
temos uma riqueza rítmica dentro das muitas modalidades da música caipira e jóias ricas melodicamente também.

Entrevista com Pedro Lemos Barbosa (Pinho), editor da Revista Viola Caipira

Para você, qual é a verdadeira raiz da música caipira? Ela realmente se originou no meio rural?
Em tudo o que li, em minhas pesquisas, e vivi ao lado dos violeiros, pude perceber que a verdadeira raiz da música caipira está no campo e no homem do campo. Ali se encontra a base de todos os ritmos considerados caipiras, tais como o cururu, a moda de viola, o pagode, o cateretê, a guarânia, entre tantos outros. E foi ali que houve uma resistência para que a viola caipira não desaparecesse do cenário musical do país com a invasão de ritmos estrangeiros.

A música caipira pode ser vista como a identidade do homem do campo? Essas pessoas realmente costumam ouvir esse tipo de música ou isso é apenas uma ideia generalizada?
Sim, é a identidade do homem do campo, pois traz em sua essência o seu dia a dia, o cenário onde vive e seus desabafos. O homem do campo ainda resiste a toda imposição da mídia moderna, mantendo-se fiel ao seu estilo costumeiro, não abrindo mão da sua identidade.

No meio urbano, a música caipira é apreciada? Ela é bem aceita ou é criticada?
Hoje em dia, podemos dizer que temos mais violeiros nas capitais que no meio rural. Portanto, com essa concentração de músicos, a música caipira ganhou adeptos nos centros urbanos, apesar de não estar presente na grande mídia. Podemos perceber uma geração de jovens adeptos da viola caipira crescendo a cada dia, mas ainda há preconceitos com relação à mesma.

Que tipo de público você acha que gosta mais dessas músicas?
Classes A, B, C, D e E, ambos os sexos e todas as classes sociais. Logicamente que devemos considerar uma parcela desse público, visto que a imposição da grande mídia induz uma grande fatia desse público a outros tipos de música, com qualidade duvidosa. Digo isso embasado no público da Revista Viola Caipira, que vem crescendo a cada dia, descobrindo a viola como opção à falta de qualidade musical vigente nos demais estilos.

Você acha que existe muita diferença para uma dupla tocar no campo (em uma festa de roça, por exemplo) ou na cidade? Existe um clima diferente? Por exemplo, na roça, as pessoas podem se sentir mais íntimas, mais familiarizadas?
Não necessariamente. O músico, independente do estilo, gosta de tocar para qualquer público, desde que este goste do seu trabalho. Portanto, na cidade ou na roça, o que importa é o respeito que esse público tem pela música apresentada. Acredito que nas cidades a viola desperta ainda mais interesse, pois ela remete as pessoas ao universo onde a origem da música caipira está inserida.

E seria, por acaso, esse clima mais família que caracteriza o "mundo caipira"?
Pode-se dizer que sim. O universo caipira caracteriza-se pela humildade, pela simplicidade como a vida é encarada pelo homem do campo. Ele aprecia a natureza, respeitando seus limites; lida com a religiosidade com grande respeito; mantém tradições e crenças e é, antes de tudo, um sábio.

Muitas pessoas utilizam o termo "caipira" como algo pejorativo, mas na verdade, seu sentido é outro, é algo muito positivo, muito bom. Você acredita que qual ideia prevalece na cabeça das pessoas?
O termo “caipira” ainda está presente na mente do nosso povo como algo pejorativo. É comum ouvir entre alguns violeiros que eles tocam “viola” e não “viola caipira”, quando muito “viola sertaneja”, “viola de 10 cordas”, mas suprimem o termo “caipira”, talvez com medo de serem caçoados. Ainda povoa na mente das pessoas o caipira “jeca tatu”, doente, incapaz, sem perspectiva, divulgado tão intensamente durante o governo militar. Culpa da falta de informação de que somos vítima.

E a música sertaneja, qual a diferença dela para a música caipira? Você acha que a primeira é mais bem aceita ou é apenas uma "fase", uma "moda" entre as pessoas?Como comparar modismo com tradição?
Ouvi uma frase do crítico musical José Ramos Tinhorão que diz o seguinte: “música caipira é manteiga e a sertaneja é margarina”. Acho que essa frase sintetiza bem a questão, levando em conta que a primeira, com conteúdo e tradição, se mantém pela qualidade, a segunda além de ser descartável, não tem consistência. Mas como para o mercado fonográfico, tudo que é descartável é mais rentável, vemos uma invasão da música “sertaneja” como produto de prateleira.

O que, em sua opinião, mais caracteriza a música caipira, de raiz? Por que ela é tão importante para a identidade do brasileiro?
A música raiz é caracterizada pela sua simplicidade, pelos temas rurais e, sobretudo, pela utilização da viola caipira e acordeom. Normalmente é apresentada em duplas, com vocalizações em terças paralelas (ou seja, as melodias das duas vozes se mantêm separadas pela mesma distância na escala). Como ela geralmente aborda o cotidiano do caboclo, suas tradições e crenças – considerando a origem do nosso povo - eu a considero de extrema importância para a manutenção da identidade do cidadão brasileiro, como um arquivo vivo da nossa história.

“Tu hás de lembrar da colcha e também de mim...”

Não tem quem não conheça uma boa moda de viola. Diversão garantida quando se relembra refrões de Boate Azul, Saudade de Minha Terra, Menino da Porteira, Tristeza do Jeca. Como não se emocionar com a música caipira? Ela é da terra, é raiz do campo e identidade do brasileiro. Canta a vida simples retratada em versos bem elaborados. “O que eu visto não é linho, ando até de pé no chão, e o cantar de um passarinho é pra mim uma canção. Vivo com a poeira da enxada, entranhada no nariz. Trago a roça bem plantada pra servir meu país”. (Caipira – Joel Marques / Maracaí).

Apesar de a platéia geralmente ter “pessoas com idade evoluída”, como aponta Zé Goiano, a música caipira não tem idade, classe social nem sexo. Pedro Lemos conta que em suas pesquisas observou um número crescente de pessoas que descobrem “a viola como opção à falta de qualidade musical vigente nos demais estilos, mas ainda há preconceito”. E não é um movimento exclusivamente rural. “Com a concentração de violeiros nas capitais, a música caipira ganhou adeptos nos centros urbanos, apesar de não estar presente na grande mídia”.

E na grande mídia não há espaço mesmo, reclama Zé Goiano, “a menos que você tenha dinheiro para injetar e poder participar dos programas de TV. Para sobreviver só da música é preciso ter dinheiro, além de uma boa dupla e uma boa gravadora”. Além disso, há um certo preconceito com o termo “caipira”. Povoa na mente de algumas pessoas a noção de que seja aquele indivíduo desinformado, incapaz e sem perspectiva. É comum ouvir entre alguns violeiros que eles tocam “viola” e não “viola caipira”. Quando muito “viola sertaneja”, “viola de 10 cordas”, mas suprimem o termo “caipira”, talvez com medo de serem caçoados.

Com isso, a cultura desse povo, que é na verdade a cultura do brasileiro, muitas vezes não se difunde. As músicas, as letras, os shows são marcadas por uma riqueza cultural que, nem sempre, é tão valorizada e apreciada.

Mesmo sem espaço e sem a apreciação devida, Tonico e Tinoco, Milionário e José Rico, Tião Carreiro e Pardinho são sempre uma boa pedida. Relembrar clássicos sempre contagia a platéia. Não tem quem não conheça uma boa e velha moda de viola.

As modas de viola

Como as modas de viola fincaram o pé na terra e resistem aos modismos

“Não se fazem coisas como antigamente” e “nada como as boas coisas simples da vida”. Você já deve ter ouvido essas frases e, se concorda com elas, deve sentir saudade e dar valor às conversas com os vizinhos na calçada da rua, às brincadeiras de roda e a um prato feito caprichado.

São aquelas coisas que continuam boas com o passar do tempo... entre elas, a música caipira – “uma canção que dura muitos anos e não morre, a letra e a melodia ficam aí, já a música do sertanejo moderno apaga, não tem uma história”, defende Zé Goiano, cantor na estrada há mais de trinta anos.

Pegada em terra seca que o vento não desfaz, a música raiz é um retrato da vida do campo, do cenário onde vive o caboclo, seus desabafos, suas tradições e crenças, enfim, sua identidade e a essência do seu dia-a-dia. É do campo que vêm a inspiração e a simplicidade da música raiz – cururu, moda de viola, pagode, cateretê, guarânia, entre outros. Trata os temais rurais com uma viola caipira e um acordeom, geralmente com duas vozes separadas pela mesma distância na escala (terças paralelas). Pedro Lemos Barbosa, diretor e editor da revista Viola Caipira, vai mais longe e arrisca ser “a identidade do brasileiro, um arquivo vivo da nossa história”.

Será que dá pra comparar modismo com tradição? Pedro lembra a frase do crítico musical José Ramos Tinhorão: “música caipira é manteiga e a sertaneja é margarina” e explica que “a primeira, com conteúdo e tradição, se mantém pela qualidade; a segunda, além de ser descartável, não tem consistência”. Apesar de radical, a opinião revela o que o mercado fonográfico procura: produtos descartáveis que são mais rentáveis, por isso a invasão da música sertaneja em prateleiras, diz.

Apesar das novas marcas em terra molhada, a música sertaneja alegre que faz dançar e fala de amor, nasceu ao mesmo tempo em oposição e complementação à música caipira: em oposição por ter grande espaço na mídia e, atualmente, sofrer menos preconceito; em complementação, por ter raízes comuns com a música caipira e, desse modo, manter algumas semelhanças. A relação entre elas costuma ser amistosa, havendo inclusive mistura dos estilos em shows e em caracterizações de algumas duplas.

No entanto, há uma forte resistência, principalmente do homem do campo que, fiel ao seu estilo costumeiro, não abre mão da sua identidade e luta para que a viola caipira não desapareça do cenário musical brasileiro como parte da nossa cultura, diz Pedro.